"Arraiá de crente" ???
publicado em 13/07/2007, por Rosana Salviano Salabai
Crente ou não, impossível que você não saiba: junho, como pede o nome, é o mês das festas juninas – aquelas, com banderinhas coloridas, fogueira, quadrilha, música da roça e uma infinidade de sabores. Um verdadeiro arraial caipira em clubes, associações, escolas e igrejas. A polêmica é que nem todo mundo é favorável à participação nas mesmas. Muito menos à promoção desse tipo de evento pelos evangélicos – seja como tema de aniversários, o que é muito comum nessa época, ou mesmo como programação da igreja.
“É uma festa pagã que foi incorporada ao calendário católico para homenagear os santos”, argumenta o pastor batista Mauro Paganeli. E de fato ele tem razão quanto ao que historiadores contam sobre a origem das Festas Juninas.
Segundo alguns estudiosos, as Festas Juninas nasceram na Europa, no século IV, como uma comemoração católica a São João, e bem por isso, antes eram chamadas de Festas Joaninas. Depois, foram incorporadas à festa homenagens a São Pedro – para os católicos, o fundador daquela igreja – e Santo Antônio, o “santo casamenteiro”. No entanto, registros históricos também levam a crer que a festa surgiu antes mesmo da era Cristã, quando os celtas, povos que habitavam a região da atual Grã-Bretanha, dançavam em volta de uma fogueira para comemorar a chegada do verão, pedir aos deuses uma boa colheita e clamar por fertilidade para as mulheres da aldeia. A explicação popular para a origem da festa, porém, é diferente. “Diz-se que Santa Isabel era muita amiga de Nossa Senhora e pela falta de comunicação daquele tempo, para Nossa Senhora saber que o bebê tinha nascido, Isabel faria uma grande fogueira e mandaria erguer um mastro com um bebê na ponta. Logo que a criança nasceu ela fez o combinado e Nossa Senhora foi visitá-la”, informa o pastor Alexandre Farias, consultor do Instituto Cristão de Pesquisa. Segundo ele, foi aí que o dia de nascimento de São João, 24 de junho, começou a ser festejado com mastro, bandeiras, fogueiras e danças. “É muito claro que essas festas fazem parte de uma tradição na qual nós, crentes em Jesus, não compactuamos; são louvores e adoração a homens”, diz ele.
No Brasil, acredita-se que a Festa Junina tenha sido trazida pela corte portuguesa, em 1808, e sido adaptada pelos brasileiros ao longo dos anos: as quadrilhas, dança de origem francesa, ganharam ares caipiras, e as comidas, bem como o colorido da festa, fariam representações do povo simples do interior do país. A tradição e a cultura brasileira seriam então as responsáveis pelo formato da Festa Junina que conhecemos hoje.
“A Festa Junina é uma tradição folclórica e um povo, cristão ou não, não pode fechar os olhos para sua origem cultural”, diz o pastor Olívio Marques, da Comunidade Esperança, de Belo Horizonte (MG). Em sua igreja, a festa Junina já ganhou destaque na agenda de eventos e é planejada durante meses. “Se tornou uma festa evangelística que atrai gente da cidade inteira”, conta ele, ressaltando que na programação da festa - “caipira, e não junina, para evitar críticas” - não estão incluídas quadrilha e no cardápio, não há bebida alcoólica. “Em lugar disso, apresentamos Jesus aos visitantes através de apresentações de teatro, louvor e um atendimento de primeira qualidade, com muito amor e alegria”.
Outro pastor, o paranaense Jader de Lima, da Comunidade Peniel de Foz do Iguaçu (PR), não se coloca favorável à realização de festas com essas características nas igrejas evangélicas, mas não critica quem participa delas em outros lugares ou mesmo quem as promove. “Na minha igreja não faço porque sei que gera polêmica, então abro mão pelo bom testemunho; mas também acho que a Festa Junina não é mais religiosa, virou tradição, folclore brasileiro”, diz. E ele faz um desafio. “Pergunte a quem vai a essas festas se eles estão lá para homenagear santos e prove você mesmo que hoje a Festa Junina perdeu seu caráter católico”.
Trigo no joio
Enquanto as igrejas divergem sobre o assunto, muitos pais evangélicos têm a difícil tarefa de decidir se deixam ou não seus filhos participarem das Festas Juninas – principalmente nas escolas. “Como explicar aos meus filhos pequenos que aquela festinha tão legal do colégio não é para eles?”, questiona a empresária paulistana Silmara Rodrigues Freitas. “Vou dizer que somos crentes e deixa-los decepcionados com nossa opção religiosa?”
As dúvidas de Silmara são comuns e verdadeiras. Nem sempre é fácil a uma mãe evangélica impedir a participação de seus filhos em festas polêmicas, como a Junina. Muitas famílias optam, então, por deixa-los comparecer, mas, conscientes do significado de toda aquela comemoração. “Explico que eles não estão lá para homenagear santos, mas para brincar de caipiras da roça”, diz Silmara. “Daí aproveito para falar que nossa igreja é diferente e tocar em assuntos relacionados a tudo isso”.
Para o pastor Alexandre Farias, no entanto, a melhor saída não é essa. Ele concorda que impedir a participação das crianças é difícil e quem, sem explicação, traz mais prejuízos que benefícios. Mas é favorável à autoridade paterna, que “com amor, orienta os filhos, mostra na Bíblia porque aquele costume não deve ser incorporado à sua família e, quem sabe, troca a festa por um passeio”. “Se você conversar com seus filhos sobre o assunto, estará dando a oportunidade do Espírito Santo trabalhar em seus corações”, completa.
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Símbolos Juninos e crendices populares
Balão: Hoje são proibidos, mas há quem acredite que quem solta um balão que sobe sem problemas terá seus desejos realizados. Ele também já foi usado para enviar agradecimentos e pedidos aos santos;
Fogueira: Seria a responsável por “purificar” o lugar e, nos primórdios, uma das formas encontradas por Maria e Isabel para se comunicarem. No ritual católico, para cada santo, deve ser montada de um jeito. Para Santo Antonio, em forma de quadrado; São Pedro, em formato triangular; São João, em pirâmide;
Quadrilha: Simboliza o casamento na roça e tem origem nas danças palacianas da França do século 18;
Fogos de artifício: Alguns acreditavam que soltar foguetes era uma forma de despertar São João e convida-lo a participar da festa.